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Apresentação Inicial

Apresenta-se aqui uma tradução livre e adaptada do texto Source Temple and the Great Reset” de Charles Eisenstein, publicado em março de 2021, no qual expõe sua recente visita à Comunidade Source Temple, localizada próxima à cidade de Cunha, no Estado de São Paulo.

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Resumo

Inicialmente, após breve apresentação da Source Temple, Eisenstein utiliza o enfoque arquitetônico enquanto a estrutura que permite qualidade de vida, ou de espírito, para o relacionamento essencial entre pessoas e natureza, fazendo uso de algumas imagens locais que servem como exemplos do conteúdo desenvolvido. Em seguida, com base nas condições de harmonia entre espaço construído e natureza, o autor caracteriza a vida fundamentalmente enquanto disponibilidade e suficiência de tempo, em oposição ao padrão de escassez de tempo comum em nossa sociedade nos dias atuais e que traz como consequência um alto custo ecológico e espiritual.

Nesse sentido, Eisenstein sugere, utilizando argumentos aplicados em seu livro Economia Sagrada (Sacred Economics), três princípios econômicos estruturantes em uma comunidade intencional:

  • Maior foco local em contraposição ao processo de globalização;
  • Decrescimento econômico em lugar de ser necessário crescer indefinidamente;
  • Ritmo de vida harmônico enquanto requisito para o aprofundamento das percepções e relações humanas.

Por fim, o autor integra brilhantemente o crucial paradoxo entre espírito e matéria: uma verdadeira comunidade espiritual inclui, e não separa, materialismo e economia, em suas contrapartes sagradas, na condição de componentes essenciais das relações humanas saudáveis, harmônicas e estáveis.

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Source Temple

Recentemente, visitei uma comunidade espiritual no Brasil chamada Source Temple. Apoiando-se principalmente nos ensinamentos de Adi Da e Um Curso em Milagres, a comunidade é composta por cerca de trinta pessoas de cerca de dez países, principalmente do Brasil e da América do Sul, com idades variando entre 20 e 60 anos de idade. Não irei endossar nem criticar os ensinamentos espirituais e linhagem; eles servem ao propósito de inspirar e ancorar a comunidade em pensamentos, percepções e relacionamentos incomuns.

Em seu site, o Santuário Source Temple é assim apresentado:

“É uma reunião de Almas (Alma sendo um Filho Soberano ou Efeito da Causa Primária, que também pode ser chamada de ‘Deus’) com a intenção de demonstrar individual e coletivamente que na Realidade todas as coisas são possíveis”.

“O único coletivo verdadeiro é um coletivo de Almas, porque somente Almas estão na posição de reconhecer um Contexto Único ou uma Fonte Única. Templo é dedicação – ação na consciência – e, portanto, pode ou não estar associado a uma localização no espaço. A dedicação envolve necessariamente relacionamento (é preciso dedicar-se a algo) e, nesse sentido, o Source Temple é uma dedicação compartilhada (e mútua) à Fonte Comum. Em nossa fidelidade à nossa Fonte reside o nosso Relacionamento Real com o próximo, e juntos, com Deus”.

Arquitetura Viva

A primeira coisa que impressiona profundamente no Source Temple é a arquitetura, se “arquitetura” é a palavra certa para descrever a arte improvisada de suas vinte residências e outras tantas construções.

Tudo foi construído com baixo orçamento, usando principalmente materiais reutilizados, reciclados e doados. Não existem duas portas ou janelas em toda a propriedade idênticas; todas feitos à mão. Muitas das janelas nem mesmo são retangulares: parece que alguém construiu a janela em torno de qualquer pedaço de vidro quebrado que estivesse disponível.

No entanto, não há nada descuidado ou aleatório nos edifícios. Eles são devocionais. Eles incorporam o impulso: “Farei uso de tudo o que estiver disponível para criar o ambiente mais bonito e funcional que puder”. Eles também incorporam um tipo de precisão que contradiz sua irregularidade.

Transparece a precisão de saber o que se pretende, o que está a serviço do futuro prédio, as pessoas que o usarão e o terreno que o circunda. Essa consciência guia as construções.

Nenhum dos edifícios começou com desenhos ou projetos arquitetônicos. Eles não foram projetados; eles simplesmente cresceram, sendo os construtores agentes desse crescimento, implementando cada passo seguinte à medida que a visão final gradualmente se transformava em clareza.

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É possível ver naqueles edifícios algo que alcançava o ideal do clássico templo taoísta. O templo não é uma imposição, mas o aperfeiçoamento da paisagem. Como se pertencesse àquele local. Constitui um serviço à criação.

Como seria a sociedade humana, como seria a tecnologia, se nos dedicássemos desse modo ao serviço da criação?

Cada edifício é mais bonito do que deveria ser, “tem que ser” para qualquer função obviamente utilitária.

Permanecer lá, por alguns dias, dentro e entre essas construções, no entanto, me levou a perceber que atendiam a uma necessidade profunda e forneciam uma nutrição igualmente profunda.

Qual necessidade?

Estar rodeado de objetos que contêm alma.

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Ter alma é ser real. Ser real é ser totalmente único e totalmente relacionado. Em uma floresta virgem, não há duas árvores idênticas e tudo está em relação constante e interdependente com tudo o mais.

Assim, sentimos uma espécie de retorno ao lar quando somos capazes de estar totalmente presentes em tal floresta. Os olhos repousam tranquilos.

Nas construções modernas, a maioria dos objetos foi despojada de exclusividade e relacionalidade.

Por exemplo, na maioria das residências, todas as janelas são idênticas ou com, no máximo, alguns poucos tipos padronizados. O ambiente moderno está repleto de ângulos retos precisos, composta por elementos padronizados e uniformes. Os produtos da economia mercantil também estão distantes de suas origens e relações.

Ao cortar uma árvore para construir uma porta, pode-se ver o efeito da ação pessoal e, desse modo, ter o cuidado de escolher a árvore certa a ser cortada para compor a peça em questão.

A enorme distância entre os objetos manufaturados e seu contexto original contribui para nos tornar alheios aos danos ecológicos que possam representar. O que é menos óbvio é o dano estético, o dano psicológico resultante de viver entre coisas artificiais e padronizadas.

Os olhos não conseguem repousar; estão sempre procurando pela alma daquilo que veem.

É muito difícil para um ser vivente existir em meio a coisas sem alma.

Em sua obra de quatro volumes, “The Nature of Order” (A Natureza da Ordem), o arquiteto Christopher Alexander explora a questão: “Por que alguns edifícios (e outros objetos fabricados) têm uma qualidade de vida ou de alma, enquanto outros não?”

Ele ilustra a questão com fotografias impressionantes que contrastam edifícios modernos com outros mais antigos.

É claro o que ele quer dizer. A lista de características que ele desenvolve tem um fator marcante: em sua totalidade, não é passível de formalização.

Nenhuma fórmula ou algoritmo pode replicar a alma. Essa conclusão não é mera metafísica; e oferece uma bússola para nosso futuro econômico e tecnológico.

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Os edifícios e objetos do Source Temple transmitem uma espécie de riqueza. Eu não acho que as pessoas seriam gananciosas por casas maiores e por mais dinheiro se estivessem imersas em um ambiente como este.

As necessidades não atendidas que impulsionam a ganância seriam satisfeitas.

A tragédia da ganância é que nenhuma soma de dinheiro ou de qualquer outro valor pode saciá-la.

Não importa o quanto consuma, a pessoa gananciosa continua com fome. Isso não é devido a uma falha moral. A pessoa encontra-se faminta por algo que o dinheiro não pode comprar.

É nutritivo viver dentro do objeto de devoção de alguém, especialmente se for alguém que se conhece bem.

Os residentes em Source Temple participam da construção de suas próprias casas, chegando até a trocar de casa, ocasionalmente, quando se sentem estagnados, adicionando seu padrão de energias ao novo domicílio, além de absorver os padrões lá existentes.

Como as casas crescem com a comunidade e seus membros, Source Temple exemplifica o insight de Christopher Alexander:

“Uma casa não é apenas um espaço habitacional, é também um desdobramento de nossa experiência. Uma casa não é um ato, mas uma série de atos; não é um objeto, mas uma experiência; não é uma mercadoria para ser comprada e vendida, mas uma atividade essencial à vida”.

Em vez de ser o desdobramento de nossa existência e expressão de liberdade, nossas casas tornaram-se o aprisionamento de nossa existência, a negação de nossas vidas.

Uma das maneiras pelas quais os edifícios de Source Temple registram riqueza e completude é que, em termos de horas de trabalho por metro quadrado de espaço físico, eles são extremamente ineficientes. Demora muitas horas para montar uma janela ou porta do zero, em comparação com alguns minutos para comprar e instalar uma janela convencional.

Sim, a participação de alguém contribuiu para a janela produzida em fábricas também, mas todo o sistema e economia industrial são voltados para minimizar o trabalho, meta alcançada por meio de tecnologia e processos padronizados.

O resultado é o barateamento, a miséria, porque todos esses produtos incorporam o preceito do tempo insuficiente. Isso é o que a eficiência codifica.

Precisamos nos apressar. Temos que ser mais rápidos. A eficiência incorpora a mentalidade de escassez. Não podemos perder tempo para torná-lo realmente bonito e íntegro.

Qualidade de Vida: Suficiência de Tempo

Em Source Temple, é evidente que ninguém tem pressa. As pessoas têm tempo. Alguém achou importante tornar as coisas mais bonitas do que o necessário para evitar a chuva, e eles investiram o tempo necessário para isso.

Estar lá, nesse ambiente, suaviza os próprios hábitos de pressa como que convidando para a abundância de tempo.

Tal abundância de tempo é nosso direito de nascença.

Não é privilégio, como se apenas aqueles que chegaram ao topo da hierarquia econômica pudessem se dar ao luxo de viver de modo integral, essencial ou devocional.

A vida devocional era universal nas culturas de caçadores-coletores e camponeses tradicionais, e ainda é fato corrente onde essas culturas permanecem intactas. As pessoas nas partes menos desenvolvidas deste planeta sempre parecem dispor de mais tempo.

É verdade que, na economia moderna, o lazer está disponível apenas para aqueles em seus níveis superiores,

Não estamos falando de lazer, descanso do trabalho, mas sim de uma abordagem diferente do trabalho. Na ausência de oportunidades de apoio social para trabalho devocional, os membros da sociedade competem por seu substituto artificialmente escasso que chamamos de lazer.

Hoje, a automação e a inteligência artificial estão tornando mais fácil do que nunca a fabricação de grandes quantidades de mercadorias antinaturais e padronizadas com o mínimo de trabalho humano.

Uma categoria de trabalho após a outra está se tornando obsoleta, projetando um futuro de desemprego crônico em massa. As máquinas podem fazer nosso trabalho de maneira muito mais barata e eficiente do que nós, deixando os humanos cada vez com menos o que fazer, exceto consumir.

Custos Ecológico e Espiritual

Historicamente, a solução para esse problema na era industrial tem sido aumentar o consumo de forma a manter os empregos. O custo ecológico dessa tendência é óbvio; menos notado é seu custo espiritual.

A produção em massa e eficiente que incorpora escassez atende a uma limitada faixa de necessidades humanas, enquanto aumenta a necessidade do incomum e do relacional. Tal condição não atende a necessidade de uma vida com essência (devocional) e, assim, poder dispor desse tipo de vida refletida no ambiente físico.

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Seria impossível produzir em massa os edifícios do Source Temple.

Mesmo que máquinas pudessem imitar seu artesanato, os edifícios são exclusivos do local e da comunidade a que servem. Não poderiam ser replicadas em outro local. Uma réplica exata realocada para um ambiente diferente não seria mais o mesmo edifício.

Objetos, edificações, não podem ser separados de relacionamentos.

Digerir essa implicação fundamental da mecânica quântica é ter uma sociedade completamente diferente.

A economia de mercado tal como a conhecemos depende da separabilidade de objetos e relacionamentos.

Essa é a natureza do dinheiro: valor puro e abstrato. Funciona bem para mediar a troca de objetos alienados e dissociados, mas quando busca interface com o relacional, o específico e o consciencial, a moeda tende a se reduzir a si mesma, um índice que pode ser considerado útil, porém artificial.

O construtor, ao construir uma casa, por exemplo, precisa desafiar a lógica de mercado para gastar um tempo extra para torná-la mais bonita do que o necessário, além do contrato. Por que ele faria isso, desafiando o dinheiro?

Por amor.

A perfeição estética também é um relacionamento, serviço, devoção a algo ou alguém que você ama além da coisa em si, pois o próprio objeto é apenas relacionamento.

A devoção manifesta nas construções em Source Temple reflete a devoção entre si dos componentes da comunidade.

É um bálsamo ver pessoas transbordando de riso e lágrimas fáceis, servindo umas às outras de maneiras que nem poderiam ser notadas, olhando com amor para os rostos uns dos outros, sentados em círculo.

Em tempos de isolamento (covid), em algum nível esquecemos que tais expressões básicas de humanidade ainda existem, além de também constituir uma espécie de riqueza.

O self é relacionamento.

É trágico que, para preservar o eu, seja necessário impedir relacionamentos.

Algo persiste no isolamento, mas é um ser encolhido em comparação com aquele que poderia prosperar em um relacionamento pleno com sua comunidade.

Princípios Econômicos em uma Comunidade Intencional

Vivemos na época da bastante falada Grande Reinicialização (Great Reset), uma época que se seguiu a grande destruição que abriu caminho para a construção de algo diferente, talvez para garantir os ganhos de grandes corporações, dos governos centrais e dos multimilionários.

Que visão de desenvolvimento humano podemos ter para expressar a devoção àquilo que amamos?

Source Temple oferece um vislumbre, assim como algumas outras comunidades intencionais e, em particular, muitas sociedades indígenas e tradicionais.

Uma coisa que elas têm em comum é a de estarem fora dos paradigmas econômicos modernos de riqueza, progresso e desenvolvimento.

Na verdade, tais comunidades nos pedem para reverter grande parte do pensamento econômico convencional.

Vamos aqui esboçar alguns princípios econômicos para uma Grande Transformação que poderia ajudar a tornar o amor mais visível em nosso ambiente físico e social.

Em outras palavras, uma inversão mesológica com perspectivas reversas do pensamento econômico em termos de globalização, crescimento e produtividade.

1. Maior foco local (vs Globalização)

Até muito recentemente, a globalização era amplamente aceita como uma tendência imparável e desejável. Na verdade, é uma consequência natural da produção em massa e da alienação de materiais de sua matriz de relações originais.

Não importa de onde algo vem; tudo o que importa é o preço.

A miríade de interações que produzem os objetos de consumo, as interações ecológicas que produzem as matérias-primas, as interações humanas de produção, afunilam-se na relação única e unidimensional de comprador e vendedor.

Nós nos sentimos estranhos cercados por essas coisas.

Uma sensação sutil de não estar realmente em casa corrói nosso interior.

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A experiência e o sentido de algo produzido localmente.

Em contraste, algo produzido localmente, por seres humanos (ou não) que você conhece e com quem se relaciona de várias maneiras contribui para um sentimento de pertencimento, um sentimento de casa.

Olhar para uma porta e lembrar que a madeira veio de um palete antigo e do galho de uma árvore que um dia estava ali próximo – você talvez até se lembre da tempestade com raios que a derrubou – e que Júlio e Miguel construíram aquela porta, justo quando o Júlio estava terminando com a Cláudia e eu o ajudava a lixar, e … – a porta está emaranhada no meu mundo, na minha constelação do eu.

E posso ver o impacto social e ecológico de sua produção, algo amplamente invisível na economia de mercado global, onde normalmente apenas o preço e as especificações objetivas são visíveis.

Viver cercado por coisas significativas e belas é dificilmente possível sem conexão com a comunidade local e com o lugar. Porque, novamente, a beleza vem do relacionamento. Quer falemos de Source Temple ou de qualquer aldeia tradicional de camponeses, os relacionamentos eram materiais.

As pessoas fazem comida umas para as outras, cuidam dos filhos umas das outras, fazem os instrumentos musicais umas para as outras, criam música e drama juntas, cultivam comida umas para as outras, constroem casas juntas.

Se as pessoas desenvolvem todas essas funções em uma economia de mercado global, os relacionamentos locais se atrofiam.

Há pouco o que fazer um pelo outro ou criar juntos.

Sem dúvida, a globalização e a divisão do trabalho permitem muito maior eficiência de produção, muito mais coisas com muito menos trabalho, mas será que a sociedade dominante com seu alto consumo é realmente mais feliz do que as pessoas em aldeias indígenas remotas?

Aqueles que nunca estiveram em uma podem pensar, certamente somos; eles estão atolados em uma pobreza miserável sem as modernidades tecnológicas, como TV a cabo, Wifi, 5G, KFC ou XYZ. Entretanto, essa é uma projeção apenas com base em como é a vida moderna sem essas coisas.

Não estou defendendo o desmantelamento completo da economia global, da produção em massa ou da divisão do trabalho. Algumas coisas que podemos querer manter, como o computador no qual estou escrevendo este texto, exigem isso. Porém enormes reinos da vida material humana podem ser recuperados localmente, como a maioria de alimentos, abrigo, entretenimento e roupas.

No nível político, isso requer a reversão dos tratados de livre comércio, o fim dos subsídios para a infraestrutura de transporte, o fortalecimento de proteções ambientais e trabalhistas em todo o mundo, além da elevação de tarifas para proteger as economias nacionais e locais.

Isso também significa acabar com o colonialismo moderno, implementado por meio da dívida do Terceiro Mundo, que força as nações do Sul a orientar sua produtividade para as exportações.

A localização sacrifica eficiências de escala.

Para dar um exemplo extremo, leva muito mais tempo e esforço para fiar, tecer e costurar nossas próprias roupas do que para fazê-las em uma fábrica, mas o resultado é algo significativo e precioso, não algo estranho e barato.

Imerso em tais coisas, mesmo que sejam em menor número, a pessoa se sente rica. Acumulando quantidades de coisas de baixo custo, a pessoa experimenta um tipo de autobarateamento, e não de riqueza, mesmo que essas coisas artificiais produzidas em série sejam muito caras.

A verdadeira riqueza é pertencer. Ter uma riqueza de relações.

2. Decrescimento econômico (vs crescimento)

Parece já estar claro como a localização é incompatível com o crescimento econômico.

Os economistas definem crescimento como um aumento no volume de bens e serviços trocados por dinheiro.

A construção de janelas com materiais reciclados, recolhidos ou doados, usando trabalho comunitário em vez de trabalho pago, não contribui em nada para o crescimento econômico, como os economistas o definem.

Por outro lado, qualquer lugar onde as pessoas ainda constroem as próprias casas, cuidam dos próprios filhos, cultivam os próprios alimentos, cantam as próprias canções, fazem os próprios remédios e ajudam uns aos outros após qualquer infortúnio é um “mercado subdesenvolvido”, onde tais funções podem ser substituídas, respectivamente, pela indústria da construção, indústria de creches, agronegócio, indústria do entretenimento, indústria médica e indústria de seguros.

Desenvolvimento significa fazer a transição de uma cultura local baseada em dádivas naturais e locais para uma economia de mercado global.

Em síntese, a autossuficiência local é incompatível com crescimento econômico.

Em reverso, o decrescimento vai além da substituição de parte das trocas globais por trocas locais; também envolve recuperar a parte da vida relativa a trocas.

Ao contrário da crença popular e da mitologia dos economistas, as sociedades pré-mercado (e pós-mercado) não devem operar apenas por escambo ou qualquer outro meio alternativo de “troca”.

Trata-se de culturas de dádivas.

Eu ajudo a construir sua porta, mas você, não necessariamente, me dá uma camisa costurada à mão em troca.

Você sente afeto e gratidão por mim e (além de todos que veem o que eu fiz) me reconhecem como um membro colaborador da comunidade. Por esse carinho e respeito, ou talvez vendo minha necessidade, um ou mais deles me dá a camisa.

Conhecendo-nos há anos, ouvindo histórias uns dos outros, sabemos o que cada pessoa gosta e precisa. Sentimo-nos generosos com aqueles que são generosos e mesquinhos com aqueles que são mesquinhos, puxando assim todos para a cultura da dádiva.

Esse processo pode ser visto em detalhes no livroEconomia Sagrada (Sacred Economics); o ideal de economias locais baseadas em presentes pede uma reversão do imperativo de crescimento sistêmico.

O sistema econômico atual é um sistema de crescimento, exigindo crescimento econômico para funcionar.

Sem crescimento, os mecanismos de criação de dinheiro param, os níveis de dívida aumentam, a desigualdade se intensifica e o sistema oscila de uma crise para a outra, enfraquecendo as classes média e baixa.

Esse processo é analisado em detalhes no livro “Economia Sagrada”; aqui, apenas observo que o ideal de economias locais baseadas em presentes pede uma reversão do imperativo de crescimento sistêmico.

Uma Grande Restauração nesse espírito deve incluir um jubileu significativo, o cancelamento da dívida, e, a partir daí, um sistema monetário não mais baseado em dívidas com juros para a criação de dinheiro.

3. Harmonização do Ritmo de Vida

Apesar de séculos de invenções que economizam trabalho, parecemos tão ocupados como sempre (e mais ocupados do que os caçadores-coletores que gastavam cerca de 20 horas / semana por adulto na subsistência).

Durante séculos, pelo menos desde a Revolução Industrial e possivelmente muito antes, o principal objetivo da tecnologia tem sido aumentar a produtividade, seja da produção ou da vida cotidiana.

Leva menos tempo para remover ervas daninhas de um campo com um cultivador mecânico do que com uma enxada, e menos tempo ainda para encharcá-lo com herbicidas.

Leva menos tempo dirigir dezesseis quilômetros do que caminhar, adicionar uma coluna de números por planilha em vez de à mão, usar um banco de dados de computador em vez de um arquivo físico.

Podemos fazer muito mais, muito mais rápido do que nunca. No entanto, de alguma forma, apesar de séculos de invenções para economizar trabalho, parecemos tão ocupados como sempre (e até mais ocupados do que os caçadores-coletores que gastavam cerca de 20 horas por adulto na subsistência).

As pessoas em Source Temple nunca pareceram estar com pressa. Elas sempre tiveram tempo um para o outro, mostrar urgência não é algo que temos aqui.

Quanto menos desenvolvido um lugar, mais tempo as pessoas parecem ter para brincar, para promover arte e cerimônia.

A experiência da abundância de tempo é talvez a forma mais primordial de riqueza, porque o tempo é a própria vida. O que mais nós temos realmente nessa vida, senão nosso tempo?

Correndo de um lado para o outro, servo do calendário, o humano moderno nunca se sente totalmente senhor de si. Não tem tempo para fazer as coisas como elas deveriam ser feitas.

Lewis Mumford nomeou o relógio, não a máquina a vapor, como a invenção crucial que lançou a Revolução Industrial. Fábricas operadas pelo relógio; computadores ainda mais, uma coordenação precisa na escala de nanossegundos.

No entanto, o que a humanidade precisa hoje não é ter cada vez mais e mais rápido. As necessidades que podem ser atendidas dessa forma já foram atendidas (Sim, existem muitas pessoas na terra ainda em grave carência material, mas isso não é devido à escassez agregada, é devido à má distribuição).

É hora de mudar a lógica econômica, os hábitos e os sistemas que nos obrigam a crescer sempre mais eficientes, produtivos e, portanto, consumistas. No geral, temos uma hiperabundância de coisas que podem ser feitas com eficiência, lado a lado com uma escassez gritante das coisas que só podem ser feitas lentamente, com amor e devoção.

Tais ações e coisas que devem ser elaboradas lentamente atendem a necessidades que, quando não atendidas, levam ao consumo excessivo.

A pessoa rica em tempo, beleza e relacionamentos tem pouca fome de substitutos produzidos em massa.

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No plano da política econômica, uma forma de desacelerar é por meio de uma renda básica universal. Estou ciente de seus perigos: substituir a autodeterminação econômica pela dependência do estado (cuja distribuição pode ser condicionada ao comportamento complacente do cidadão), travando a destruição de pequenas empresas e meios de subsistência independentes.

No entanto, em um mundo onde o trabalho de cada vez menos pessoas é necessário para atender às necessidades quantificáveis ​​da sociedade, logicamente, mais e mais pessoas terão que se dedicar a atender às necessidades qualitativas.

As fábricas podem produzir grandes quantidades de alimentos baratos, mas não podem produzir alimentos feitos com amor por alguém que me conhece intimamente, usando ingredientes vivos com os quais nos relacionamos.

Nenhum processo de construção padronizado usando materiais de fábrica padronizados pode estimular a construção de uma casa, uma extensão de mim mesmo e de meus relacionamentos.

Como essas coisas são inalienáveis ​​a um criador e receptor específicos, as forças de mercado não podem produzi-las.

Uma Real Comunidade Espiritual Inclui Materialismo e Economia Sagradas

As pessoas chamam uma comunidade como o Source Temple de “espiritual”. Por quê?

A palavra tem conotações do não mundano. Não é que os residentes afirmem estar em comunicação com entidades sobrenaturais ou forças invisíveis.

No entanto, seu modo de vida é puro, no sentido de que contraria importantes convenções sobre a vida e o trabalho.

 O leitor pode achar estranho que eu tenha combinado um diário de viagem sobre uma comunidade espiritual com um conjunto de propostas econômicas, mas é essa divisão entre o espiritual e o mundano (o dinheiro é a própria essência do mundanismo) que causa muitos danos sobre e para a Terra em que vivemos.

Gosto de dizer que o excesso de materialismo não é o problema, que na verdade precisamos ser mais materialistas, não menos; isto é, manter a matéria sagrada em todas as suas formas, especialmente suas formas vivas. Quando restringe o sagrado a um reino não material, não é de se admirar que a sociedade moderna profane a dimensão material.

Espiritualidade, em outras palavras, não diz respeito ao que está além da materialidade. Trata-se do que a cosmovisão moderna não reconhece ou não pode ver. Portanto, tem tudo a ver com economia.

Normalmente muitos pensam na espiritualidade como algo fora das relações de dinheiro, matéria e carne, quando deveria tratar do resgate de sua dimensão sagrada.

Seria possível redefinir economia e relações humanas além do dinheiro, segundo o conhecimento das linhagens espirituais, contraculturas e sociedades tradicionais que nos antecederam?

Ideias e sentimentos, como os apresentados na obra Economia Sagrada (Sacred Economics) sem exemplos práticos como Source Temple, podem nos mostrar que isso não é fantasia; é viavel tanto individual quanto coletivamente.

Quanto mais vemos o amor ao nosso redor, mais o nosso próprio amor também se expressa.

Existem lugares no mundo onde as pessoas vivem sua essência, mantendo essa intenção conscientemente em comunidade.

Outra maneira de descrever tal intenção é viver o real dom da vida, ou seja, viver sabendo que o mundo é uma dádiva, que cada um de nós é uma dádiva para o mundo e que estamos aqui para adicionar nossas consciências à dádiva contínua da Criação.

Um amigo me contou sobre uma experiência espiritual: “Não havia nada que não fosse amor”.

Isso fica claro em um ambiente que integra espírito e matéria. É difícil lembrar disso quando se vive em uma caixa, cercado principalmente por objetos alienados, relacionando-se com outras pessoas por meio de telas, dependente de dinheiro e independente de seres humanos, animais e plantas ao redor.

Sou grato ao Source Temple e aos muitos outros espaços, pessoas e momentos de graça que despertam e sustentam o espírito do dom da vida.

Espero que o vislumbre aqui apresentado possa contribuir para despertar o seu conhecimento também.

Que cada um de nós saiba reconhecer e dar o próximo passo para viver em plenitude.

Não podemos aceitar nada menos que isso em nossos acordos coletivos.