“Sobre si mesmo, sobre seu corpo e sua mente, o indivíduo é soberano“.
 John Stuart Mill

 Síntese

Neste post discutimos o que é e apresentamos os princípios da autonomia em saúde.

 

“A autonomia não é incondicional, mas passa por um critério de universalidade”.
Immanuel Kant

Saúde

Conforme elaboramos em post anterior, saúde é a habilidade de viver sonhos, de autorrealização em uma vida plena.

Saúde é a gestão consciente da individualidade bioquímica, psicológica e social com foco em uma vida plena em favor do bem-estar pessoal, familiar e comunitário.

Embora os desafios de hoje, resultantes da epidemia de doenças crônicas em que vivemos, sejam maiores do que nunca, tenho plena convicção de que estabelecer um rumo seguro e saudável é perfeitamente viável e depende basicamente do nível de autonomia pessoal em saúde.

Autonomia

A palavra autonomia deriva do grego auto (próprio) e nomos (lei, regra, norma). Quer dizer governo de si próprio, a determinação da pessoa de tomar as melhores decisões para estruturar sua vida, saúde e integridade física, psíquica e social.

Autonomia é o contrário de heteronomia, ou o ato de ser governado por outrem.

O ser humano nasce totalmente dependente e, aos poucos, vai se tornando autônomo, galgando os vários níveis de independência, ou melhor, de interdependência.

Interdependência pois ninguém é uma ilha.

“Nenhum homem é um ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; (…) a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”
John Donne

Autonomia não é individualismo. A consciência isolada tende a se animalizar.

Sobre isso veja O Enigma de Kaspar Hauser, um dos mais conhecidos filmes de Herner Herzog. O filme trata do convívio social, sem o qual o silêncio é a única companhia. Tendo sido criado em um cativeiro, Kaspar Hauser não poderia conhecer a si próprio sem ter relação. Sem linguagem não é possível definir coisas e experiências.

A interação com o outro associa o individual ao componente social.

Autonomia, conforme Kant, tem dois polos: um negativo no sentido de ser independente de qualquer coação exterior; e o outro positivo, enquanto legislador da própria razão.

Autonomia também não é liberdade, pois interage no contexto de leis naturais nos âmbitos da biologia, psicologia e do ambiente sociocultural.

 

Síntese

Saúde significa ser completo e autonomia é o entusiasmo para construir vida equilibrada e produtiva. Cada pessoa é única e todo adoecimento, físico, mental ou espiritual, é oportunidade que mostra a necessidade de um caminho melhor.

Todos têm poder de autocura na hora de enfrentar a doença e restaurar a saúde. Para isso, é preciso integrar mente e corpo, evitar condicionamentos errados em um estilo de vida mais inteligente. Mas veja, saúde é pessoal, só você pode conquistar. Qualquer terapeuta precisa ser professor e parceiro antes de autoridade.

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Auto-organização

Autonomia implica em auto-organização, por um lado saber ativar o potencial de autorregeneração comum a todo ser humano e, por outro, saber se relacionar com as estruturas sociais (redes de interdependência).

Se, por vezes, em virtude da interdependência na qual estamos inseridos, não podemos escolher o que nos acontece, podemos certamente decidir o que fazer diante de qualquer situação enfrentada.

Além da liberdade de opção, o ato autônomo também pressupõe liberdade de ação. Além de ser capaz de agir conforme as escolhas feitas e as decisões tomadas, é importante considerar a existência de opções de ação.

A ação autônoma (liberdade de decidir, de optar) requer alternativas. Se existe apenas um único caminho a ser seguido, uma única forma de algo ser realizado, não há propriamente o exercício da autonomia.

Assim, Autonomia em saúde é a capacidade de o ser humano saber optar pelo que é bom, pelo que gera bem-estar, ou seja, de orientar o desenvolvimento pessoal por si próprio.

Autocuidado, autogestão e autossaúde são características da autonomia em saúde.

Autocuidado

É importante deixar claro que não somos contra médicos e medicina. Como disse em post anterior, no que se refere a problemas agudos, A medicina alopática é muito eficiente. A grande dificuldade da medicina oficial é com os problemas crônicos…

O ideal me parece sempre buscar, a princípio, terapias de medicina natural ou “alternativas”. Deixar para consultar as orientações alopáticas como último recurso, além de consultar diversas opiniões profissionais.

Ao mesmo tempo, em conjunto com as orientações profissionais é fundamental os estudos pessoais para formar a própria opinião.

Deve-se estudar a própria doença, a ponto de compreender o problema e poder definir a melhor opção de tratamento conforme as convicções pessoais.

Antes de mais nada, o problema é pessoal, individual e específico.

Não se pode delegar o cuidado da doença.

Nesse sentido, a relação terapeuta-paciente implica no ideal de uma educação para autonomia.

Toda terapia deve ter como princípio a construção e fortalecimento da autonomia do indivíduo.

A palavra doutor deriva etimologicamente de mestre, preceptor, o que ensina.

Infelizmente o sistema de saúde, cada vez mais, vem tirando esse atributo dos médicos, sem tempo para educação, voltados principalmente as prescrições.

A etimologia da palavra prescrição reporta determinação, preceito, regra, ou seja, algo que não deve ser discutido com pacientes.

Outra vez: Nenhuma doença é deficiência de fármacos.

Medicamentos, quando simplesmente combatem efeitos e sintomas, são incapazes de resolver as causas das doenças.

O fundamento básico da autonomia em saúde propõe que a consulta ao profissional de saúde tenha como objetivo orientar o potencial e eficácia do autocuidado e não da hegemonia da subalternidade e da eficácia do fármaco.

Autocura

Assim, ao contrário do atendimento padrão, profissionais de saúde precisam estimular, valorizar e respeitar opiniões e escolhas, ações e atitudes dos pacientes.

É claro que nem todos estão prontos para a autonomia. É preciso reconhecer que trata-se de algo lento e não pode envolver todos ao mesmo tempo.

Cada um a seu tempo.

Lembro da mensagem de um amigo gastroenterologista. Certa vez, disse:

“Ao tratar de um paciente, a decisão de fazer o esclarecimento (educação em saúde) ou uma simples prescrição de medicamento, depende de um sinal, verde ou vermelho, que transparece em seu rosto quanto a estar, ou não, aberto para a responsabilidade pessoal”.

Não existe heterocura, ou seja, ninguém cura ninguém.

Somente a própria pessoa é capaz de curar a si própria.

Em termos de saúde, apenas existe a autocura!

Autossaúde

Qualquer mudança real e efetiva em termos de autonomia em saúde deve surgir de si próprio.

Qualquer ação externa pode ajudar, mas é apenas estímulo, que poderá ter ou não efeito a partir da ação autônoma do indivíduo.

O homem comum, principalmente, e não o médico, tem o potencial e o poder de reverter a atual epidemia de doenças crônicas, causada pelo sistema de saúde e resultante em grande parte de interesses capitalistas.

Essa direção equivocada em que nos encontramos, somente pode ser alterada por meio da autossaúde ou da vontade de se autocuidar.

A lucidez de prestar atenção e decidir com maturidade em vez de seguir na condição de autômato.

Léxico de Sacadas Empreendedoras

Uma analogia interessante que faz parte do ebook Léxico de Sacadas Empreendedoras (disponível para download aqui no blog) pode clarear este ponto.

Uma empresa (ou uma pessoa) passa por pelo menos quatro níveis de maturidade. A recém-criada (um bebê) seria M1. M2 seria a criança. M3 uma adolescente. M4 uma adulta.

O fato de determinada empresa, já com o devido tempo de operação, ainda não ter uma gestão M4, aponta que na verdade o gestor ainda está no nível de M1 ou M2.

O mesmo pode ser dito em relação a sua saúde. Se você não tem o nível de saúde M4, então você é o M1…

“Uma comunidade responsável, e não a medicina, como se encontra organizada hoje, pode promover a autonomia em saúde”.
James Maskell

Princípios de autonomia em saúde

A Revolução Francesa estabeleceu três princípios básicos para a existência de uma sociedade humana justa, na qual os homens pudesse viver com dignidade: liberdade, igualdade e fraternidade.

Uma interessante relação pode ser feita com a Bioética: a relação terapeuta-paciente inclui três tipos de agentes: o paciente, o terapeuta e a sociedade.

Cada um com sentido específico: o paciente atua guiado pelo princípio da autonomia, o terapeuta pelo da beneficência e a sociedade pelo da justiça.

Podemos associar, nos termos da autonomia o princípio de liberdade, da beneficência, a fraternidade e na justiça, a igualdade.

  1. Princípio da Liberdade ou Autonomia

A responsabilidade individual por si mesmo. Compreender e se posicionar perante, entre outros exemplos, a eutanásia e a reprodução assistida.

  1. Princípio da Fraternidade ou Beneficência e Não maleficência

O respeito pela pessoa humana. Respeitar e reconhecer interesses pessoais.

  1. Princípio da Igualdade ou Justiça

Superar preconceitos e individualismos.

 “Assim, a autonomia, ou seja, a capacidade do ser humano em se gerir, merece destaque, por envolver questões que vão desde a decisão de não querer ser tratado até o suicídio assistido, nos países desenvolvidos. E, considerando a realidade de nosso País, a autonomia está diretamente ligada ao alcance da cidadania de nossa população, que se encontra geralmente submetida à vontade de outros, e nem sempre dispõe das informações necessárias para a tomada de decisões conscientes. Desta forma, pode agir de maneira ingênua em situações essenciais para sua vida e sua saúde, buscando em nós, profissionais de saúde, o suporte necessário para tomada de decisões mais coerentes”.
Freitas Lopes; Chagas; & Jorge (2007).

Enfim como desenvolver Autonomia em Saúde?

Nosso corpo humano é um sistema aberto, com entrada e saída de recursos, uma máquina que requer e produz combustível, em diversos níveis e dimensões.

Qualquer decisão de entrada ou saída de nutrientes é individual.

Saúde apenas é possível a partir da decisão pessoal, ou seja, o indivíduo é o único que pode gerir a própria saúde.

Trata-se de um programa de faça você mesmo.

Muitos procuram o caminho fácil de terceirizar esse processo o que é impossível.

Apenas a própria pessoa pode verdadeiramente curar a si mesma.

“Os direitos de autonomia e independência, antes de pronunciados já existiam”.
Getúlio Vargas

 Obrigado pela atenção,

Antonio Pitaguari

Literatura Consultada

ARAÚJO, Arakén Almeida de; BRITO, Ana Maria de; NOVAES, Moacir de. Saúde e autonomia: novos conceitos são necessários? Revista Bioética, Vol. 16 (1), 2008, páginas 117-24.

FERREIRA, Maria Solange de Castro; PEREIRA, Maria Alice Ornellas; PEREIRA JUNIOR, Alfredo. Auto-organização, Autonomia e o Cuidado em Saúde Mental. Rev. Simbio-Logias, v. 6, n. 8, Nov, 2013.

FLEURY-TEIXEIRA, Paulo; VAZ, Fernando Antônio Camargo; CAMPOS, Francisco Carlos Cardoso de; ÁLVARES, Juliana; AGUIAR, Raphael Augusto Teixeira; OLIVEIRA, Vinícius de Araújo. Autonomia como categoria central no conceito de promoção de saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 13 (Sup 2), 2008, páginas 2115-2122.

FREITAS LOPES, C.H.A., CHAGAS, N.R., JORGE, M.S.B. O princípio bioético da autonomia na perspectiva dos profissionais de saúde. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 28, n. 2, 2007, páginas 266-73.

HAESER, Laura de Macedo; BÜCHELE, Fátima; BRZOZOWSKI, Fabíola Stolf. Considerações sobre a autonomia e a promoção da saúde. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.22, n 2, 2012, páginas 605-620.

MUÑOZ, Daniel Romero; FORTES, Paulo Antonio Carvalho. O princípio da autonomia e o consentimento livre e esclarecido. In: COSTA, Sérgio Ibiapina Ferreira; GARRAFA, Volnei; OSELKA, Gabriel. Iniciação à Bioética. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 1998.

SÁ L.V.; OLIVEIRA, RA de. Autonomia: uma abordagem interdisciplinar. Saúde, Ética & Justiça. v. 12, n. 1/2, 2007, páginas 5-14.