Qual o verdadeiro papel dos artigos científicos?

Você já teve oportunidade de consultar artigos que se contradizem?

 

Ciências da saúde

Ainda no contexto do último post deste blog, quando fizemos uma relação entre o pensamento mágico e a responsabilidade pessoal, vale desenvolver a relação delas com as ciências da saúde.

A questão do cientismo, ou cientificismo, quando se confia sem criticidade na ciência, também é muito presente no pensamento mágico, aquele no qual a pessoa busca uma solução rápida para seus problemas, como um medicamento, suplemento ou mesmo uma terapia.

Pubmed

As pessoas tendem a pensar que a ciência está sempre certa e é definitiva. É comum achar que um artigo científico, só porque foi publicado no Pubmed (principal base de dados das pesquisas em saúde, também conhecida como Medline), isso significa que resultados são verdadeiros, estão comprovados e podem ser aplicados sem erros para todas as pessoas.

No início deste mês, dia 06 de maio de 2017, encontrei uma interessante matéria publicada no New York Post, por Susannah Cahalan, com o título Pesquisas médicas são quase sempre falsas (Medical studies are almost always bogus).

Uma verdadeira pérola

Apresenta uma obra recém publicada, em 2017, com o título Rigidez cadavérica: Como uma ciência superficial cria curas sem valor, esmaga a esperança e desperdiça bilhões (tradução livre de Rigor Mortis: How Sloppy Science Creates Worthless Cures, Crushes Hope, and Wastes Billions). O autor é Richard Harris e a editora Basic Books.

Crise da reprodutibilidade das pesquisas

Richard Harris chama atenção para a crise da reprodutibilidade das pesquisas publicadas, em outras palavras, os achados científicos acabam sendo não confirmados, ou seja, não resistem ao teste do tempo. Um total de 2/3 dos trabalhos são desconsiderados depois de avaliados seriamente.

Isso não é totalmente negativo, pois a ciência se desenvolve por tentativa e erro. Mas chegamos a um ponto no qual o progresso dos pesquisadores passou a depender de descobertas mirabolantes. Existem grandes recompensas para ser o primeiro a apresentar conhecimentos novos, mesmo que o conteúdo não subsista depois de algum tempo. Esses problema tem relação íntima com processos de financiamento de pesquisas.

Superficialidade e passividade social

Um dos motivos é que não existe muito potencial financeiro em se buscar a causa dos problemas de saúde, mas apenas a cura. Outro ponto é que os governos são regidos pelas grandes corporações e mesmo que você busque se isolar de tudo, uma fazenda industrial nas vizinhanças estará aplicando elementos químicos no ar que você respira, matando flora e fauna e abrindo caminho para sementes geneticamente modificadas. Como resultado temos superficialidade e passividade social.

A questão é como os cientistas poderiam ser menos propensos a ideias duvidosas.

“Mesmo a melhor ciência pode ser enganosa, e regularmente o que você lê não é a melhor ciência”.
Richard Harris

A maioria dos resultados de pesquisa publicados são falsos.

Também é importante mencionar John Ioannidis, professor de Medicina Universidade de Stanford, nos EUA, com foco em Política e Pesquisa em Saúde. Há muitos anos ele se dedica a mostrar por que a maioria dos resultados de pesquisa publicados são falsos. Ioannidis mostra que para a maioria dos desenhos e configurações dos estudos científicos é mais provável que um achado de pesquisa seja falso do que verdadeiro.

Segundo Ioannidis, os achados das pesquisas frequentemente são simples medidas do viés predominante. Grande parte das pesquisas está impregnada com o conceito de viés de confirmação, ou seja, o pesquisador ao buscar testar sua hipótese só considera o que a confirma.

É só ver que, em geral, os pesquisadores, e mesmo quem divulga os achados científicos, costuma citar apenas outros autores e artigos que tem relação com seu interesse, desprezando o outro lado, ou seja, artigos que mostram resultados que não subsidiam ou confirmam seus interesses.

Avaliação dos periódicos

Outro fator que precisa ser considerado é a avaliação dos periódicos, das pesquisas e dos autores. Mesmo boas avaliações internacionais pelo fator de impacto da Thomson Reuters, ou pelo Qualis no Brasil, sugerem mas podem não garantir qualidade. A indústria farmacêutica está aí para garantir que seus produtos são bons e confiáveis. No imenso universo das bases de dados científicas precisamos ter cuidado para não ficar apenas com o que confirma nossas hipóteses.

Aí está o desafio: separar o joio do trigo.

Para concluir, no contexto da Autonomia em Saúde é válido pensar que não se deve generalizar orientações de saúde. Mais uma vez: todos somos diferentes. O que serve para um não serve para outro.

É claro que existem padrões e mecanismos biológicos naturais que devemos conhecer o máximo possível, mas o pior mito que existe é que todos reagimos do mesmo modo aos alimentos e que quando se segue determinada dieta o corpo se comporta como o de outras pessoas.

Não é o que acontece.

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REFERÊNCIAS

BUSCATO, Marcela. O médico americano, da Universidade Stanford, tornou-se um dos pesquisadores mais prestigiados ao denunciar interesses comerciais e erros nos estudos de medicina. Revista Epoca. Disponível em: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2016/07/john-ioannidis-maior-parte-da-pesquisa-medica-nao-e-confiavel.html. Acesso em 25.07.2016.

CAHALAN, Susannah. Medical studies are almost Always bogus. New York Post. Disponível em: http://nypost.com/2017/05/06/medical-studies-are-almost-always-bogus/. Acesso em: 06.05.2017.

HARRIS, Richard. Rigor Mortis: How Sloppy Science Creates Worthless Cures, Crushes Hope, and Wastes Billions. New York: Basic Books, 2017.

IOANNIDIS, John P. A. Why Most Published Research Findings. PLoS Medicine | www.plosmedicine.org. Open access, freely available online. August 2005 | Volume 2 | Issue 8 | e124. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.0020124>. Acesso em agosto, 2005.