A mais recente reviravolta da carne vermelha com base em ciência e não em palpites

Adaptado de Nina Teicholz. Título original: Opinion: The latest flip-flop on red meat uses best science in place of best guesses

Ovos fazem mal; ovos são bons.

Gordura é ruim; gordura faz bem.

Carne é ruim; carne é … ok?

A última reviravolta sobre alimentos saudáveis ou não saudáveis continua promovendo reviravoltas notáveis na mídia.

Como orientações nutricionais, aparentemente sólidas, podem se transformar a tal ponto?

A resposta é que muitas das recomendações nutricionais oficiais, incluindo a ideia de que a carne vermelha pode matar, tem base em um tipo de ciência inconsistente e na qual os especialistas infelizmente se acostumaram a confiar.

Tal ciência duvidosa começa a ser questionada. Estão em jogo ideias profundamente arraigadas sobre alimentação saudável e diretrizes nutricionais.

A carne vermelha é um tema particularmente controverso. As pessoas têm fortes objeções em relação a comer carne por vários motivos: meio ambiente, direitos dos animais e até religião (por exemplo, os adventistas do sétimo dia desaconselham).

As recentes notícias, no entanto, ajudam bastante a entender melhor os erros de se promover uma dieta vegetariana.

Uma rigorosa revisão de quatro artigos científicos, na prestigiosa revista Annals of Internal Medicine, analisou o universo das pesquisas que examinam saúde e carne vermelha e concluiu que apenas existe evidências de “baixa ou muito baixa certeza” para mostrar que o consumo de carne possa causar qualquer tipo de doença, ou seja, nem câncer, nem doença cardíaca, nem diabetes tipo 2.

Clique na figura para acessar os artigos no site da Annals of Internal Medicine

Comer carne vermelha não está nos matando.

A razão original pela qual começamos a desconfiar da carne vermelha foi, a partir de 1961, quando a American Heart Association passou a orientar que se limitasse o consumo de gordura saturada para prevenir doenças cardíacas. No entanto, nas últimas décadas houve a retratação desse tema.

Um artigo recente da revista BMJ Evidence-Based Medicine consolida 17 revisões independentes mostrando que gorduras, sejam de carne, queijo ou óleo de coco, não afetam a mortalidade. E se a gordura saturada não faz mal, não existe qualquer outra evidência que desaconselhe a carne vermelha.

Clique na figura para acessar o artigo no site da BMJ

Infelizmente, nossas diretrizes nutricionais são baseadas principalmente em estudos epidemiológicos, que geralmente seguem um grande grupo de pessoas ao longo do tempo, pedindo que relatem o que comeram e depois observando eventuais problemas de saúde resultantes. Esses estudos podem demonstrar associação, certamente com inúmeros benefícios, mas raramente estabelecem causalidade.

A exceção singular ocorre quando a epidemiologia varia fortemente, como ocorreu com o tabaco. Descobriu-se que os fumantes pesados têm um risco nove a 25 vezes maior de câncer em comparação com quem nunca fumou, uma diferença tão grande que a causa poderia estar implícita. No entanto, na epidemiologia da nutrição, as taxas raramente excedem 1,5 vezes, o que a maioria dos epidemiologistas fora da nutrição não considera relevante.

Somente pesquisas do tipo ensaios clínicos podem demonstrar causa e efeito, porque esse tipo tem base em experiências reais. Na forma mais simples, um grupo alimentado com uma dieta é comparado a outro grupo de controle que não faz a dieta em estudo. Tais experimentos nem sempre são fáceis, mas são considerados o padrão-ouro pelos sistemas internacionais para a revisão de evidências científicas.

Os estudos de carne vermelha usaram um desses sistemas de revisão, conhecido como GRADE (Classificação das Recomendações para Avaliação, Desenvolvimento e Avaliações). Ao priorizar adequadamente os ensaios clínicos em detrimento da pesquisa observacional, o GRADE necessariamente tirou a epidemiologia do seu pedestal, e isso levou a equipe do GRADE, com mais de 40 pesquisadores de mais de 10 países a concluir que é muito improvável que reduzir a ingestão de carne pode ser mais saudável.

O establishment da nutrição tremeu.

Mesmo antes da publicação do artigo, 14 pesos pesados ​​assinaram uma carta exigindo uma “retração” preventiva da revisão. Todos os signatários eram membros de um grupo chamado True Health Initiative, que defende uma dieta baseada em plantas. Muitos recomendam dietas à base de plantas em seus trabalhos de pesquisa, cuja base são estudos epidemiológicos. Alguns inclusive apresentavam conflito financeiro.

Com tantas pesquisas dependentes de financiadores, a existência de conflitos não é incomum. Após a publicação da revisão da carne vermelha, foi rapidamente apontado que, embora o autor principal não tivesse aparentes conflitos relacionados ao estudo da carne, ele havia aceitado anteriormente um financiamento de um grupo da indústria com membros como Mars e PepsiCo para uma revisão de pesquisa sobre açúcar em 2017.

Por outro lado, os assinantes da carta True Health Initiative incluíram cinco epidemiologistas da Escola de Saúde Pública de Harvard, que, em 2017-2018, recebeu centenas de milhares de dólares de grupos da indústria de nozes e amendoins; o grupo das nozes é citado como doador nos últimos cinco anos. Pelo menos nove artigos de Harvard em cinco anos apoiaram os benefícios das nozes à saúde.

Quaisquer que sejam os possíveis incentivos, os críticos da análise dos Anais sobre a carne vermelha objetam principalmente sua metodologia.

O GRADE, eles disseram, era uma “ferramenta de medição inadequada”, projetada para avaliar drogas, mas não “estudos sobre o estilo de vida”. No entanto, nada menos do que as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina recomendam o GRADE como um dos poucos métodos para avaliar estudos nutricionais para as Diretrizes Dietéticas dos EUA.

Avaliar as descobertas nutricionais usando o mais alto padrão científico possível é claramente um processo custoso, mas é essencial. Se acreditávamos em uma pirâmide alimentar que na prática não tem consistência, é hora de mudar, independentemente de suposições, investimentos ou preconceitos.

Depois de décadas de “melhores palpites” com base em uma ciência fraca que provavelmente vai ser desmascarado por ensaios clínicos mais rigorosos não trouxeram uma saúde melhor.

Apesar de uma forte redução de 28% no consumo de carne vermelha desde 1970, cerca de 60% dos norteamericanos agora sofre de pelo menos uma doença crônica, e nas quais a dieta é o fator de risco preponderante.

A revisão dos Anais é exatamente o que precisamos: informações dietéticas de causa e efeito baseadas na melhor e mais consistente ciência.

Gratidão pela atenção!

Antonio Pitaguari

Para saber +

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