Azia e Refluxo: Antiácido resolve?

Azia e Refluxo: Antiácido resolve?

Drogas para bloquear a acidez estomacal, chamadas inibidores da bomba de prótons (IBP), são consumidas regularmente, com a maioria dos médicos e pacientes completamente alheios aos devastadores efeitos colaterais.

 

Vamos ver nesse texto que a mudança na dieta é o melhor antídoto para distúrbios digestivos. Comer comida de verdade oferece suporte poderoso sem efeitos colaterais negativos.
O objetivo principal dos IBPs é reduzir a quantidade de ácido gástrico secretada na parede do estômago.
Esses medicamentos que se encontram disponíveis com ou sem receita médica, são usados para tratar distúrbios comuns, como indigestão, azia, refluxo ácido e úlceras.
Esses tipos de distúrbios digestivos são tão comuns que apenas entre 2006 e 2010 os IBPs foram prescritos em quase 270 milhões de consultas hospitalares [1]. A dieta frequente de alimentos processados altamente ácidos e carregados de açúcar, além do estilo de vida estressante podem explicar o fato de que os IBPs estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo.
Economicamente, é preciso reconhecer o impulso que esses medicamentos representam para as empresas farmacêuticas. Com vendas acumuladas de mais de US $ 10 bilhões por ano (apenas nos EUA), medicamentos como Omeprazol, Nexium, Prilosec, Prevacid e outros representam uma parcela significativa dos lucros da Big Pharma [2].
Apesar de pesquisas clínicas que mostram que um ato tão simples quanto beber mais água reduz mais o ácido estomacal do que esses medicamentos, e o faz com muito mais segurança e sem efeitos colaterais negativos, o relacionamento da indústria farmacêutica com o consultório médico da esquina muitas vezes impede que essas práticas básicas sejam disseminadas.
Os IBPs elevam o pH do estômago acima da faixa normal para inibir a secreção de pepsina, uma enzima digestiva que pode ser irritante para o revestimento do estômago. Embora essa ação proporcione sentimentos temporários de alívio, ela bloqueia efetivamente a secreção de enzimas normais e saudáveis, prejudicando a função digestiva no longo prazo. A falta de secreções estomacais adequadas também nos expõe a fungos, vírus e bactérias prejudiciais presentes nos alimentos.
Perigos dos antiácidos 
Os IBPs apresentam vários efeitos colaterais que ocorrem com seu uso continuado. Os efeitos colaterais de curto prazo mais comumente relatados do uso de IBPs são:
  • Distúrbios digestivos, como náusea, vômito, diarreia, constipação, dor abdominal e gases
  • Dores de cabeça
  • Sintomas de febre ou resfriado, como nariz entupido, espirros e dor de garganta
  • Erupções cutâneas
  • Comprometimento cognitivo
  • Infecção

 

Uso continuado
Ainda mais preocupante, informações de recentes artigos científicos abordam os efeitos a longo prazo dos IBPs. Ao contrário do que se pensava, considerados seguros e bem tolerados, efeitos colaterais sérios pedem o fim do acesso irrestrito a esses medicamentos. As descobertas são impactantes [3]:
A maioria das pessoas que toma IBP o faz em virtude de escolhas alimentares e de estilo de vida que criam condições desfavoráveis no trato digestivo. Comida de baixa qualidade, consumida em condições precárias, seguida de café ou refrigerante.
“Deu ruim?”
Basta tomar uma pílula para afastar a inevitável azia que se segue. Quando as pílulas estão tão prontamente disponíveis que nos ajudam a separar as consequências das causas, tais equívocos alimentares podem se tornar comuns, e até normalizados. Os efeitos colaterais são apressados nos comerciais, com ênfase em “apreciar os alimentos que você ama!”. Presumivelmente, sem nenhuma desvantagem.
Entretanto, os efeitos sistêmicos dos IBPs estão finalmente sendo reconhecidos, e a ação desses medicamentos não é meramente isolada no estômago. Eles afetam a produção de ácido de todas as células do corpo humano. Em 2016, Pesquisa apoiada pela American Heart Association realizada na Universidade de Stanford e no Houston Methodist Hospital, no Texas, obteve descobertas impressionantes.
Os IBPs inibem efetivamente a produção de ácido em todo o corpo, interrompendo processos metabólicos saudáveis e normais das células. O banho de ácido que os IBPs interrompem no estômago seria necessário para liberar importantes enzimas digestivas. Quando essa atividade enzimática é inibida no resto do corpo (porque os efeitos dos IBPs não se limitam ao estômago), as células se tornam incapazes de decompor os resíduos.
Esse processo se compara a “um depósito de lixo que requer ácido para funcionar”. As células tornam-se rapidamente sobrecarregadas por esses resíduos, e os efeitos prejudiciais do envelhecimento são acelerados. Esse tipo de dano celular deixa os pacientes, particularmente aqueles que tomam IBP por um ano ou mais, suscetíveis a uma série de doenças e até mesmo risco de morte prematura [4].
É crítico observar que o uso razoável desses medicamentos foi enormemente extrapolado. Aprovados pelo FDA apenas para uso a curto prazo [5], esses medicamentos agora são tomados diariamente por milhões de pessoas, às vezes por décadas. Os médicos precisam atentar quando se trata de proteger os pacientes dos efeitos nocivos do abuso de medicamentos e agora são culpados pelo excesso de prescrições [6].
Complicações derivadas dos antiácidos
As possíveis complicações dos IBPs são vastas, pois cada indivíduo responde aos medicamentos de maneira diferente. Cabe a cada pessoa determinar seu nível de risco aceitável, e a determinação adequada do risco não pode ser feita sem primeiro conhecer os fatos. Com base na ciência mais recente, os seguintes fatores de risco representam os cinco principais motivos pelos quais você nunca deve tomar um IBP.
1. Doenças renais 
A evidência de que os IBPs são prejudiciais ao baço e aos rins apareceu pela primeira vez em casos de nefrite intersticial aguda, inflamação dos tecidos entre os túbulos renais que afetam a maneira como nossos rins regulam e absorvem a água. Observou-se que essa condição, que pode levar à insuficiência renal, ocorre repentinamente e em taxas significativamente mais altas entre os usuários de IBP. Também foi observado que a interrupção do uso de IBPs desencadeia uma reversão dos sintomas em muitos casos. Uma vez que o alarme soou, foram realizados grandes estudos observacionais que encontraram correlações do uso de IBP com o aumento da incidência de lesão renal aguda, doença renal crônica e doença renal em estágio final [7 e 8],
Esses riscos aumentam quando os usuários consomem mais de uma dose diária desses medicamentos [9]. Embora os pesquisadores sejam rápidos em apontar que a correlação não é causalidade, a tendência dos dados foi alarmante o suficiente para levar médicos e pesquisadores a reconhecer:

“Os antiácidos (IBPs) podem não ser tão inócuos quanto se pensava inicialmente”.

Uma metanálise de estudos independentes encontrou associação positiva e significativa em treze dos dezessete estudos, entre IBPs e função renal comprometida [10], levando os pesquisadores a concluir que “a interrupção dos IBPs pode reduzir a doença renal”. Isso é especialmente verdadeiro nos casos em que o uso é prescrito para pacientes sem problemas médicos sérios, como é o caso da maioria dos usuários de IBPs.

2. Doenças cardíacas 

Atualmente, um conjunto significativo de evidências demonstra efeitos cardiovasculares adversos dos IBPs. Um artigo de junho de 2016, publicado no American Journal of Cardiovascular Drugs, revisou as informações disponíveis sobre os IBPs em relação aos riscos cardiovasculares, bem como os mecanismos pelos quais esse dano ocorre.

O estudo confirma a descoberta de que os efeitos inibidores da bomba de prótons não são isolados nas células do estômago. Em particular, observou-se que os IBP reduzem a acidificação de lisossomos, células responsáveis pela degradação de proteínas, gorduras, carboidratos e ácidos nucleicos. Os IBPs alteram as funções celulares básicas, incluindo aquelas relacionadas à capacidade de coagulação do sangue, aumentando assim o risco de eventos cardíacos adversos graves [11].

Um estudo realizado na Dinamarca, envolvendo mais de 56.000 participantes que foram hospitalizados por infarto do miocárdio (IM), relatou o aumento de 30% na incidência de morte cardiovascular, infarto do miocárdio recorrente ou acidente vascular cerebral no primeiro mês após a alta para os pacientes que faziam uso de IBP [12].

Outro estudo com quase 24.000 participantes confirma esse achado, relatando o risco aumentado de IM recorrente naqueles indivíduos que fazem uso de IBP [13].

Uma meta-análise de estudos envolvendo mais de cem mil pacientes no total examinou a ligação entre riscos cardiovasculares para pacientes que tomam IBP em conjunto com medicamento para afinar o sangue. A análise revelou que, embora essa combinação de medicamentos seja contraindicada devido os IBPs favorecerem a diminuição da eficácia do diluente de sangue, “um risco cardiovascular significativo” foi atribuído ao uso exclusivo de IBPs [14].

3. Distúrbios digestivos 
A maioria das pessoas consome IBPs devido a problemas no sistema digestivo, portanto, pode parecer oximorônico incluir essa condição na lista de razões para não tomar IBPs. A doença mais comum citada na elaboração de prescrições para IBP é a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). Essa condição, que se expressa como excesso de ácido no estômago, não é a única razão para prescrever um IBP. As prescrições de IBPs visam atender 50% de todas as doenças digestivas [15].
O uso excessivo de IBP foi documentado em vários estudos [16 e 17], portanto, se a causa da queixa digestiva é excesso de ácido ou outra qualquer, a solução em muitos casos é um IBP. Isso cria condições para que o diagnóstico adequado da queixa digestiva não possa ser realizado, e um efeito dominó de sintomas que podem ou não estar relacionados ao problema original termina por obscurecer o quadro.
Acredita-se que o intestino seja nosso “segundo cérebro” devido à proliferação de sinais biológicos que se originam no trato intestinal. O equilíbrio ácido no estômago, diretamente alterado pelos IBPs, agora é visto como desempenhando um papel vital na saúde da microbiota. Os IBPs alteram o delicado equilíbrio do pH no intestino, comprometendo as comunidades microbianas e corrompendo esses sinais biológicos. Estudos vincularam danos à saúde e diversidade de micróbios intestinais benéficos, diretamente ao uso de IBP [18]. Um microbioma alterado pode gerar queixas digestivas e efeitos colaterais de IBP como por exemplo diarreia [19] e vômitos [20].
Enfim, a microbiota comprometida por meses ou anos pode levar a doenças graves, como doença inflamatória intestinal, obesidade, diabetes, doença hepática, câncer entre outras patologias [21].
4. Distúrbios cerebrais
Uma das relações mais surpreendentes entre IBPs e problemas crônicos de saúde são com distúrbios cognitivos. Embora a ideia de que os alimentos afetem nosso humor não seja nova, ainda não existe consenso sobre o impacto dos alimentos na saúde cerebral.
Um estudo divulgado em dezembro de 2015 sugeriu que os IBPs aumentam a carga cerebral do beta-amiloide, um aminoácido considerado como o principal componente das placas amiloides encontradas no cérebro de pacientes com Alzheimer.
Os IBPs também são conhecidos por gerar deficiência de vitamina B12, outro fator na doença de Alzheimer.
Os pesquisadores reuniram sessenta voluntários, divididos em cinco grupos de teste e um grupo de controle. Cada um dos cinco grupos recebeu um IBP diferente: omeprazol, lansoprazol, pantoprazol, rabeprazol e esomeprazol. Todos os seis grupos participaram de testes neuropsicológicos computadorizados no início do estudo e, novamente, sete dias após a ingestão diária máxima de IBPs específicos.
Embora os pesquisadores admitam que um estudo maior é desejável, a evidência era clara:

“Foram encontrados comprometimentos estatística e clinicamente significativos na memória visual, atenção, nas funções executiva, de trabalho e de planejamento mental. Todos os IBPs tiveram impacto negativo semelhante na cognição”.

Dos IBPs estudados, o omeprazol teve o impacto mais significativo (resultados significativos em 7 de 7 testes de cognição) e o esomeprazol mostrou comparativamente menor impacto (resultados significativos em 3 de 7 testes) [22].
Alimentado por esse tipo de resultado, foi realizado um estudo maior em 2016, que analisou mais de 73.000 participantes, com 75 anos ou mais e livres de demência. Os pacientes que receberam medicação IBP regular tiveram um risco significativamente aumentado de demência incidente em comparação com os pacientes que não receberam medicação IBP [23]. Os pesquisadores chegaram à conclusão chocante e franca de que a prevenção do uso de medicamentos IBP pode impedir o desenvolvimento de demência.
5. Risco de morte 
Está claro pelas evidências que os IBPs têm um efeito sistêmico em todo o corpo, não apenas na pequena função que eles são prescritos para ajustar. Os IBPs promovem um ataque ao funcionamento celular básico, inibindo o metabolismo celular saudável, comprometendo a capacidade do corpo converter os blocos de construção da vida, proteínas, carboidratos, gorduras e ácidos nucleicos, em energia corporal de qualidade, o mesmo ocorre com o sistema imunológico, e assim, diminuindo a qualidade de vida de quem faz uso de tais medicamentos.
Um estudo antigo que ajudou a ampliar a conscientização sobre os danos causados pelos IBPs, em 2013, chamado Inibição de atividades de enzimas lisossômicas por inibidores da bomba de prótons. Os pesquisadores observaram que muitos dos efeitos adversos dos IBPs são causados por imunidade comprometida de modo sistêmico, resultado da inibição das enzimas lisossômicas pelos inibidores de IBP. Os lisossomos são essencialmente pequenas membranas que transportam enzimas essenciais às funções metabólicas celulares. Quando os IBPs inibem essa função, há aumento da incidência de tumores (tumorigênese) e doenças infecciosas [24].
Outra pesquisa de 2016 [25] examinou a associação entre uso de IBP e “risco de mortalidade por todas as causas” entre veteranos dos EUA. Neste estudo, quase 350.000 registros de veteranos foram analisados, incluindo novos usuários de IBPs ou do tipo mais antigo de antiácido, bloqueadores de H2, além de grupos de controle que não tomavam medicamentos. Eventos de saúde foram observados em aproximadamente seis anos. Os pesquisadores ficaram surpresos com os resultados [26]. O aumento do risco de morte foi associado a IBPs em todos os controles, incluindo o risco 25% maior de morte em comparação aos indivíduos que tomam bloqueadores H2.
O risco de morte foi maior ainda quando comparado aos que não tomavam medicamentos antiácidos. Além disso, quanto mais tempo a pessoa toma IBPs, maior o risco de morte. Embora os pesquisadores admitam que não sabem como cada pessoa no estudo chegou ao fim, observou-se que o uso de IBP foi mais proeminente em indivíduos mais velhos e doentes. Considerando a variedade de processos biológicos que nossas bombas de prótons facilitam, o desvio da capacidade do corpo de desempenhar funções celulares saudáveis e normais é uma maneira eficiente de se tornar biologicamente mais velho e mais doente.
Outras precauções ao tomar ou considerar um inibidor da bomba de prótons são o potencial para interações medicamentosas ou contra-indicações. Os ácidos estomacais são frequentemente instrumentos na absorção de medicamentos ingeridos e, por esse motivo, os IBPs têm o potencial de afetar negativamente a eficácia de qualquer medicamento oral.
Consulte seu médico para obter orientação sobre este e qualquer assunto relacionado a medicamentos. Acima de tudo, confie na capacidade do seu corpo de se curar quando receber os ingredientes e oportunidades certos.
A mudança na dieta é o melhor antídoto para distúrbios digestivos. Comer comida de verdade oferece suporte poderoso sem efeitos colaterais negativos.
Referências
[11] Sukhovershin, R.A. & Cooke, J.P. Am J Cardiovasc Drugs (2016) 16: 153. https://doi.org/10.1007/s40256-016-0160-9
[12] Proton-pump inhibitors are associated with increased cardiovascular risk independent of clopidogrel use: a nationwide cohort study. Charlot M, Ahlehoff O, Norgaard ML, Jørgensen CH, Sørensen R, Abildstrøm SZ, Hansen PR, Madsen JK, Køber L, Torp-Pedersen C, Gislason G. Ann Intern Med. 2010 Sep 21; 153(6):378-86.
[13] Risk of recurrent myocardial infarction with the concomitant use of clopidogrel and proton pump inhibitors.Valkhoff VE, ‘t Jong GW, Van Soest EM, Kuipers EJ, Sturkenboom MC. Aliment Pharmacol Ther. 2011 Jan; 33(1):77-88.
[14] No consistent evidence of differential cardiovascular risk amongst proton-pump inhibitors when used with clopidogrel: meta-analysis. Kwok CS, Jeevanantham V, Dawn B, Loke YK. Int J Cardiol. 2013 Aug 10; 167(3):965-74.
[15] Burden of digestive diseases in the United States part I: overall and upper gastrointestinal diseases. Everhart JE, Ruhl CE. Gastroenterology. 2009 Feb; 136(2):376-86.
[16] Overutilization of proton pump inhibitors: a review of cost-effectiveness and risk [corrected]. Heidelbaugh JJ, Goldberg KL, Inadomi JM. Am J Gastroenterol. 2009 Mar; 104 Suppl 2():S27-32.
[17] Naunton M, Peterson GM, Bleasel MD. Overuse of proton pump inhibitors. J Clin Pharm Ther. 2000;25:333–340. doi: 10.1046/j.1365-2710.2000.00312.x.
[19] The Gut Microbiotassay: a high-throughput approach combinable with next generation sequencing to study gut microbial diversity. Hermann-Bank ML, Skovgaard K, Stockmarr A, Larsen N, Mølbak L. BMC Genomics. 2013 Nov 14; 14():788.
[25] Xie Y, Bowe B, Li T, et al Risk of death among users of Proton Pump Inhibitors: a longitudinal observational cohort study of United States veterans BMJ Open 2017;7:e015735. doi: 10.1136/bmjopen-2016-015735

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